segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

NOVAS DECISÕES DA ALTA DIREÇÂO (as que lembro)

E então nos reunimos mais uma vez no "Enchendo Linguiça". Casa cheia, sexta já em ritmo de carnaval, asfalto fritando pés e neurônios.

Ainda assim, sob efeito confesso de tres litros da mais pura e deliciosa Original por cabeça, tomamos importantes medidas para este "devezemquandodário".

A saber:

1. acabou, pra quem quiser, essa porra de o-que-desenha, o-que-provoca, o-sem-problemas-de-agenda etc. De hoje em diante eu vou assinar apenas como Alípio e me reservo o direito de provocar ou não;

2. o sanduíche de linguiça, por enquanto, está banido da nossa mesa. Eles estão abusando da pimenta-do-reino;

3. as fofocas girarão, a partir de agora, sempre em torno daqueles que não aparecerem nas reuniões. Falar mal pelas costas é sempre mais cômodo e de irradiação mais eficiente;

4. o Ernani está liberado para fazer uma viadagem qualquer como papel de parede em homenagem ao carnaval;

5. alguns se foderam na partilha da conta, mas estão fodidos e pronto. Quem foi embora antes deixou o que quis (e alguns deixaram muito)e quem ficou para fechar com o garçom acabou se dando bem. A mensagem, portanto, é "nunca saia antes do fim".

É isso aí.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

CONVOCAÇÃO GERAL!!!



Ficam por meio desta todos os colaboradores, simpatizantes, cônjuges, cachos, leitores, amigos do blog e público em geral CONVOCADOS para nossa reunião de pauta (risos), a qual dar-se-á na próxima SEXTA-FEIRA, a partir das 19hs, na sede social de nossa querida agremiação (risos), o bar ENCHENDO LINGUIÇA, no Grajaú, na esquina entre as ruas Engenheiro Richard e Barão do Bom Retiro (aplausos, uivos, gritos de prazer desenfreado).

domingo, 31 de janeiro de 2010

POETA MALDITO PORRA NENHUMA



                                        Num sábado qualquer de 1989, apareceu um texto meu num grande jornal. Os editores do Jornal do Brasil me deram quase metade da página cinco do primeiro caderno para escrever um artigo esculhambando o Cazuza. Foi uma estréia antipática. À época, o Cazuza, já completamente arrasado pela aids, era uma espécie de enfant-terrible queridinho da classe artística, o bad-boy que a Globo adorava exibir como exemplo de tolerância democrática . Foi ele o primeiríssimo cidadão a soltar a palavra “puteiro”, alta e clara, em horário nobre e rede nacional.

A burrice da unanimidade, porém, não prevaleceu.

Veio a revista Veja e mandou uma reportagem de capa - “Cazuza, Uma Vítima da Aids Agoniza Em Praça Pública” - praticamente destruindo a imagem do cara como poeta genial mas até exaltando o fato de ele expor corajosamente sua doença e sua intimidade. A reação foi violentíssima. Tudo o que Cazuza e família não queriam ouvir era que ele, no fundo, não passava de um poetazinho menor que apenas teve a sorte de ser filho do homem mais poderoso da indústria fonográfica brasileira. Dois ou três dias depois da matéria, várias centenas de intelectuais e artistas assinavam um manifesto - Brasil, Mostra A Tua Cara - dizendo que Cazuza era o grande herói do nosso tempo, blablabla, e que a revista Veja era apenas mais um sócio do Brasil mostrando sua face retrógrada etc. Além de lido em várias sessões teatrais, o manifesto foi publicado em todos os jornais importantes do país.

Poucas coisas me provocam tanto nojo quanto abaixo-assinados de artistas e intelectuais. Sei que, não importa o assunto, de fato, de todos ali, doze ou treze sabem realmente o que estão assinando. O resto assina por pura sabujice e/ou por status. No caso de “Brasil Mostra a Tua Cara”, tinha Chico Buarque (claro, ele sempre adorou isso), Niemeyer (é outro), Ferreira Gullar, Zico, Xuxa, Elba Ramalho, Suzana Vieira etc. Acho que, mesmo nesta pequenina amostra, não preciso aqui dizer quais seriam os sabujos de manifesto. Daí que este ilustre desconhecido que vos fala estava realmente irritado com não poder fazer nada contra aquilo.

Até que veio o telefonema certo na hora exata.

Roberto Pompeu Toledo, editor do JB com quem eu trocava cartas, me ligou e ofereceu o espaço para ridicularizar os pretensos semi-deuses que tomaram as dores do Cazuza. Topei, entusiasmado. O artigo saiu em uma hora e foi publicado na íntegra. Bolei, como título, “Tais Quais Xiitas Enfurecidos”, uma alusão ao ataque dos fundamentalistas muçulmanos ao livro “Versos Satânicos”, do Salman Rushdie.

Lavei a alma, embora consciente de que a repercussão seria quase nula. Nem me preparei para um possível debate. Ungido que é ungido não dá cartaz para mortais anônimos. Eu fui escolhido pelo Jornal do Brasil porque não tinha nada a perder. Eles, porém, sim, e muito - escreveram um monte de merda. Daí que o confronto de idéias não aconteceu. E meus quinze minutos de fama acabaram ali.

Ainda hoje, porém, a figura e a história do Cazuza provocam raios e relâmpagos na minha mente. De pequenos em pequenos intervalos, ele invade minha televisão, meu jornal, minha revista. Há sempre uma historinha qualquer para o Cazuza ficar em evidência. E claro, lubrificado por sua incansável mãezinha, ainda há um indiscutível consenso brasileiro de que ele foi o maior poeta rebelde de sua geração, quem sabe talvez de todos os tempos.

Isso, meus amigos, dói pacas.

Costumo separar a, vamos dizer assim, obra do Cazuza em duas fases. A primeira, a do Barão Vermelho, gosto muito. Ele era um bom vocalista e fazia letras simples, mas bem encaixadas em algumas músicas muito boas. Acho que “Bete Balanço” e “Pro Dia Nascer Feliz” ficarão para sempre. O Barão Vermelho foi uma banda de rock bem acima da média nacional. Tão bom quanto o “Legião Urbana”, “Paralamas do Sucesso” e o “Ultraje a Rigor”. Foi fenômeno de época, porém. Nada que mereça uma sala especial no Museu da Imagem e do Som. Uma parede para todos é mais que suficiente.

Agora, o Cazuza da carreira solo, o tal poeta maldito, o contestador underground, esse aí eu acho uma titica. Lucinha Araújo mandou uma de que ele não pode sequer ser comparado com qualquer outro pretenso do mesmo nicho de rebeldia. E Caetano se saiu com a bobagem de que ainda vamos levar dez anos para compreender a profundidade dos seus versos.

Vamos, então, aos exemplos e , por favor, corrijam-me se vêem algo além de baboseira ou mera adolescentice.

Se muito não me engano, a grande largada do pós-Barão foi o disco “Exagerado”: “amor da minha vida / daqui até a eternidade / nossos destinos foram traçados / na maternidade”. Que coisa criativa, não?! A profundidade desta poesia e a exatidão da rima me deixam realmente com vontade nenhuma de comentar.

Mas vou pegar agora uma outra aqui mais festejada: “O Tempo Não Pára”, conclusão, aliás, muito interessante. Há um momento em que ele diz: “cansado de correr na direção contrária / sem pódio de chegada / ou beijo de namorada”. E, aí, é isso. Quem corre na direção contrária vai ficar mesmo cansado e sem conseguir chegar ao pódio. Até porque não existe “pódio de chegada”. Pódio é o lugar onde os vencedores são premiados e não o ponto onde todos têm de chegar. O que existe é bandeirada de chegada, fita de chegada, reta de chegada etc. Digo isso por que o Cazuza faz aquele tipo de poesia infantilóide que cata aqui e ali as palavras que rimam com a primeira idéia. Se fazem sentido ou não, ora, há sempre algum intelectual de esquina de zona sul prontinho para dar uma de mais inteligente que os outros e interpretar como metáfora genial aquilo que nada mais era que uma expressão bocó. Foi o que fizeram com “Codinome Beija-Flor”, o tempo todo. Para o mais intrigante conjunto de versos, “Que só eu que podia / Dentro da tua orelha fria / Dizer segredos de liquidificador”, vieram ondas e ondas de conversas das mais fiadas. Um tal de Valdi Mengardo disse que “liquidificador” mostrava a “incompatibilidade entre a sociedade de consumo e a poesia”. Outro tal-de, Fernando Toledo, considerou o eletrodoméstico como expressão “urbano-idustrializada para ‘segredo de polichinelo”. E outras explicações fantásticas surgiram como, por exemplo, “segredos contados ao pé do ouvido que causam aquele tremor no corpo, como um liquidificador". O próprio Cazuza tentou explicar: liquidificador nada mais era que fazer movimentos circulares no ouvido da (do) parceira (parceiro). O que falha nessa explicação é a impossibilidade de assobiar e chupar cana – fazer “liquidificador” e contar segredos ao mesmo tempo. Na minha opinião, a palavra “liquidificador” foi algo encontrado na métrica certa e sonoridade perfeita para fechar o verso. Nada mais. Serviria também “farinha com bolor”, “espirro multicor”...

De todas as criações do Cazuza, acho uma realmente especial. “Burguesia”, para mim, é ,disparado, a mais imbecil de todas as poesias políticas que já tive o desprazer de conferir. Uma completa e acabada mistura de ignorância com ingenuidade e contradição. Um letrista semi-analfabeto de funk carioca não faria pior. Não vou me perder aqui explicando cada besteira encontrada em “Burguesia”. É coisa demais. Vou ficar apenas na amostragem.

“A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia”

(Pois, se acreditarmos no princípio de Cazuza, o único lugar onde se faz poesia no planeta Terra é a Coréia do Norte. A grande novidade, porém, neste início desastrado, é o fato de a burguesia querer ficar rica. De onde será que ele tirou isso? E quanto a feder, como diria o histriônico cantor Falcão, ela fede tanto quanto o povão, mas pelo menos pode comprar bons perfumes)

“As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
Vai haver uma revolução
Ao contrário da de 64”

(É mesmo preciso estar muito por fora de tudo para chamar aquela quartelada de 1964 de revolução)

“Vamos acabar com a burguesia
Vamos dinamitar a burguesia
Vamos pôr a burguesia na cadeia
Numa fazenda de trabalhos forçados
Eu sou burguês, mas eu sou artista
Estou do lado do povo, do povo”

(Essa agora é das mais intrigante. Cazuza era burguês mas era artista e, portanto, estava ao lado do povo e contra a burguesia. Seria um atenuante para não parar numa fazenda de trabalhos forçados?)

“Porcos num chiqueiro
São mais dignos que um burguês
Mas também existe o bom burguês
Que vive do seu trabalho honestamente
Mas este quer construir um país
E não abandoná-lo com uma pasta de dólares
O bom burguês é como o operário”

(O clímax da criação. De repente, ao que parece, Cazuza se lembrou do pai. E então inicia um trabalho de desconstrução de tudo o que vinha dizendo. Afinal, há uma burguesia que não é tão ruim assim, que é a mesma coisa que o proletariado. Dá ou não dá vontade de mandar tomar no cu?)

Aparentemente, o Cazuza sequer abriu um dicionário para tentar entender o significado da palavra “burguesia”. Jogou num campo que é minado mesmo para os artistas mais engajados. Caiu no discurso ginasiano de colégio público - a elite é culpada de tudo e o povo não é culpado de nada. Não há que ficar surpreso. Cazuza, no íntimo de sua angústia, nada tinha de revolucionário. De verdadeiro, de si mesmo, o que disse foi “Vida louca, vida breve / Se eu não posso te levar / Quero que você me leve”. Um tremendo convite à inércia.

O fato é que se não fosse a dedicação quase absoluta da Lucia Araújo – bancada pelo enorme poder do marido e pai - duvido muito que houvesse tanto auê em torno do tal do Cazuza. Certa vez, em entrevista, ela ousou comparar a produção e história do Cazuza com a de Noel Rosa. Cazuza morreu jovem, vítima da aids; Noel morreu mais jovem ainda, vítima da tuberculose. As semelhanças acabam aí. Mas a mamãe coruja do século insistiu que o Cazuza produziu mais e melhor. Só dou uma do Noel para acabar com a banca:

“Fecha a porta da direita
Com muito cuidADO
Que eu não estou dispOSTO
A ficar expOSTO
Ao sOL
Vá perguntar a seu freguês do LADO
Qual foi o resultADO
Do futebOL”

Isso aí, sim, é talento. Tudo perfeito em cada pedacinho e nada sujeito a invençõezinhas babacas de puxa-sacos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Mecanismos refinados para detectar mentiras


Numa era onde a ignorância, as modinhas religiosas e as falácias em nome da ciência predominam, como Carl Sagan percebeu muito bem, a cada dia se faz mais necessário um mecanismo infalível para detectar as mentiras que rolam soltas por aí, seja no boca-a-boca ou nos meios de comunicação.


Nunca conseguimos sequer chegar perto de desenvolver um sofisticado aparelho que conseguisse acusar com precisão uma informação falsa: um dos mais famosos esforços até agora, o polígrafo, foi reconhecido como tão duvidoso que seu teste já não é mais aceito como evidência confiável em tribunais.

Portanto, cabe a nós, humanos falíveis, diferenciar com a nossa própria experiência as verdades das mentiras. Para fazê-lo, a maneira mais confiável é identificar as bases clássicas da argumentação falaciosa, que geralmente pasam despercebidas: tais estratégias, surpreendentemente comuns, podem ser enumeradas e analisadas, como fez Carl Sagan em sua obra "O Mundo Assombrado Pelos Demônios- A Ciência Vista Como Uma Vela no Escuro"

Aí vão as principais:

Ad hominem - atacar quem arguenta e não o argumento. ex: o Sr. Fulano é um fundamentalista bíblico, portanto não temos motivos para considerar suas objeções à teoria da evolução;

Apelo à ignorância - considerar que,se uma hipótese não foi provada como falsa, ela é verdadeira;

Enumeração das circunstâncias favoráveis, ou seleção das observações - salientar os casos que se encaixam na teoria, ocultando-se os casos que a contradizem;

Compreensão errônea da natureza da estatística;

Post hoc, ergo propter hoc - estabelecer uma relação de causa e efeito entre fenômenos que não têm outra ligação além da cronológica. ex: antes de as mulheres começarem a votar, não havia armas nucleares (cadê a relação?);

Dicotomia falsa ou exclusão do meio-termo - considerar apenas os dois extremos dentre várias possibilidades intermediárias, muitas vezes mais prováveis. ex: Claro, tome o partido dele, meu marido é perfeito, e eu nunca acerto uma! Ou então: se você não é parte da solução, é parte do problema (A dicotomia falsa é a base mais usada na argumentação falaciosa, inclusive desdobrando-se em várias sub-bases.)

Espantalho - caricaturar uma posição para tornar mais fácil o ataque. ex: os cientistas supõem que os seres vivos simplesmente se reuniram por acaso. Tal argumento ignora totalmente a base da teoria evolucionista: a seleção natural;

Confusão de correlação e causa - Você pode provar que 100% dos pacientes declarados mortos em determinado dia no hospital beberam água até 72 horas antes do óbito, porém afirmar que a causa mortis foi a água é uma conclusão absurda (esse exemplo é um dos preferidos do Sem Problemas de Agenda);

Evidência suprimida, ou meia-verdade - ex: uma "profecia" espantosamente exata e e muito citada do atentado contra o presidente Reagan é apresentada na televisão. Detalhe importante, convenientemente suprimido: ela foi escrita antes ou depois do evento?

A análise cuidadosa das informações apresentadas em um texto deve checar a possibilidade de existência de qualquer uma das estratégias acima, além de muitas outras, menos comuns
menos relevantes.

Alice no País das Maravilhas Digitais

.

Impressionante e sinistro esse Tim Burton. Maravilhosamente sinistro. Não bastasse ter passado a infância a ler os clássicos de Edgar Allan Poe, era fã de carteirinha de Vincent Price (com quem já trabalhou) e dos grandes filmes de terror da época. Gosto muito da temática saborosamente sombria de alguns dos seus filmes, estrelados, na maioria das vezes, pelo exótico e excelente Johnny Depp. Entre outros, cito Edward Mãos-de-Tesoura, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, A Noiva-Cadáver e A Fantástica Fábrica de Chocolate. Poderia citar muitos outros: Peixe Grande, Batman - O Retorno... A lista é grande e fascinante. Mas, - caramba! Não era minha intenção falar aqui de Tim Burton e de sua filmografia. Queria na verdade falar do seu próximo filme, “Alice in Wonderland”. Os ingredientes combinados nesse filme prometem uma química perfeita. Além da direção do "cara" e da presença mais uma vez de Johnny Depp num dos papéis principais, o filme está sendo produzido pela Disney, que consegue aproximar a fantasia da realidade em níveis inimagináveis por meros mortais como nós. Quem serão estes criativos desenhistas por trás de suas produções que conseguem sistematicamente nos surpreender? Não tem limites suas criações?


Lembro-me bem de ter lido, na infância, Alice no Pais das Maravilhas. As ilustrações do livro eram bonitas e sugestivas e nossa imaginação fazia o resto. Através dela íamos longe e, naquela época, qualquer lugar que não fosse a Tijuca, já era bem longe. Começam a circular pela rede alguns pôsteres relacionados ao filme. Fantásticos desenhos criados por fantásticos artistas digitais. Contemplá-los nos garante uma viagem sem volta a planetas distantes. Amo o ecoline, o gouache, o nanquim e o grafite mas cada vez mais me rendo aos programas de computação gráfica. Vejam aí, alguns exemplos destes trabalhos e digam se tenho ou não razão.













Ah! "Alice no País das Maravilhas" de Tim Burton e estrelado por Johnny Depp (já falei isso antes?) tem estréia agendada para 05 de março nos EUA e 02 de abril no Brasil. É aguardar e conferir...


.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

MEU MACHO FAVORITO


.
Fosse hoje, com toda a certeza, Ernest Hemingway não ganharia mesmo o Nobel de literatura. As milhares de ongs ambientalistas não deixariam. A GreenPeace cortaria o saco dele com estilete. Com toda razão. Hemingway adorava as touradas espanholas, era um aficionado por caça de animais selvagens e ficava dias em alto-mar tentando cravar um anzol na boca de um marlim azul. Via apenas arte em tudo isso. Nada mais que uma luta entre a força primitiva e instintiva contra a destreza e inteligência do ser humano.

Uma visão míope, pra não dizer boçal.

Tourada, caça e pescaria são esportes covardes, se é que se pode chamar essas merdas de esportes. O confronto não é igual. O touro, por exemplo, nunca luta com toda sua força. Mal entra na arena e os picadores o atacam com lanças para que ele sangre e baixe a bola; entre os intervalos de olés, os bandarilheiros aparecem e cravam farpas em suas costas para que o bicho sangre ainda mais e enfraqueça de vez. Seu destino será sempre a morte, ainda que acerte o chifre no toureiro que o desafiou. Já a caçada africana, que EH usou como pano de fundo em “As Neves do Kilimanjaro”, misturava sacanagem com o mais puro espírito colonialista. Hemingway caçava numa época em que os africanos chamavam os brancos de bwana. O ritual típico do safári daqueles tempos começava com duas dúzias de crioulos baratos adentrando a mata e batendo tambor para espantar o animal - geralmente um leão – até o ponto de ser alvo fácil para o rifle do caçador. Daí, pimba, um tiro e o bicho estava no chão – prontinho pra ter a cabeça cortada e enfeitar o salão de troféus do sem-vergonha. Quanto à pescaria de marlim, os lindos saltos que o peixe dá sobre a superfície da água nada mais são que o desespero de um ser vivo para tentar continuar existindo.

Restrições pessoais registradas, Ernest Hemingway é o melhor e mais fascinante escritor que habita minhas estantes. Confessou ter tentado - e jamais conseguido - produzir um texto tão elaborado e exuberante quanto o de William Faulkner. Bebia de ficar torto e aprontava de vez em quando nos bares da vida; mas nem de longe era um rato de esgoto como Charles Bukowsky. Lutava boxe com pinta de profissional; mas nunca foi tão bom de porrada quanto Norman Mailer. O bom mesmo de Ernest Hemingway é que ele somava um pouquinho de cada gente interessante do mundo da literatura. O resultado disso deu nafigura mais fascinante do século passado.

EH não aprendeu a escrever bem na escola. Fugiu de casa só pra não ter que estudar. Fazer faculdade nunca entrou nos seus planos. Partiu direto para ganhar vida escrevendo em jornais vagabundos. Aliás, jornal, para ele, significava ir atrás do que estava acontecendo. Foi assim que passou toda a vida. Essa base de conhecimento e prática criou um certo estilo jornalístico nos seus romances. Alguns diriam "ranço". Acontece que, se foram mesmo textos jornalísticos, foram os melhores que já deliciaram o mundo. Havia algo de muito sofisticado nas garatujas e muito disso se deve à amizade, ainda jovem, com Gertrude Stein, em Paris. Gertrude revisava os escritos de Hemingway de maneira impiedosa. E ele assimilou cada correção. Viveu todas suas ficções na prática. Cada livro de EH tem um quê de experiência vivida. Se descreve as dores de um ferimento, é porque sentiu cada centímetro de dor quando foi atingido por estilhaços de bomba - na primeira grande guerra, na guerra civil espanhola, na segunda guerra mundial, sempre esteve no campo de batalha.

Como amigo, Hemingway, além de bom papo, era um bom filho da puta. Durante uns dois anos, comeu a mulher de um dos seus mais chegados confidentes - sem qualquer culpa. Mas, o que é pior, foi filho da puta com ela também. Depois de muito se lambuzar, deu aquela de cafajeste bom caráter: volte-para-o-seu-marido-porque-ele-é-o-melhor-pra-você-porque-eu-não-valho-nada-etc. Típico. Mas assim era EH. Nada importava a não ser a inspiração de escrever.

E foi exatamente por não ter mais inspiração de escrever que Hemingway se suicidou.

Num determinado dia, ele ajeitou o papel na máquina e... nada veio. Encheu a cara de uísque e tudo continuou na mesma. Não ter o que colocar numa folha branca era insuportável demais. Não havia mais saúde e energia para tentar viver situações novas.

Viver, então, pra quê?

domingo, 17 de janeiro de 2010

ALENTO


Já no início do ano, recebo duas ótimas notícias. E as duas da Inglaterra, mais precisamente da universidade de Oxford.

A primeira é que descobriram que ser completamente abstêmio é muito pior do que ser alcoólatra. Pelo menos para o coração. Um pouquinho de água-que-passarinho-não-bebe todos os dias pode ser ótimo para limpar as artérias e baixar a pressão. Bem, é claro que ser patologicamente beberrão não é uma boa, principalmente do ponto de vista social. De qualquer forma, os nosso redentores bretões dissecaram alguns mortos por cirrose e, independentemente do fígado inchado, encontraram as veias quase isentas de gorduras ruins.

Pelo exposto, eu, hipertenso moderado e com histórico de parentes cardíacos, vou cumprindo o sacrifício de, todos os dias, tomar o remédio milagroso: uma cervejinha tipo Munich sempre ao chegar em casa. Recomendo aos amigos, fortemente, a Nova Schin - sabor delicioso na língua e na garganta.

Mas a outra e mais importante boa nova é que o Centro para Diabetes, Endocrinologia e Metabolismo da Universidade, liderado pelo pesquisador Konstantinos Manolopoulos concluiu que alguns centímetros a mais nas coxas, nádegas e quadris são um ótimo negócio para a saúde. A gordura concentrada nessas partes controla ácidos graxos, secretam agentes anti-iflamatórios e os hormônios leptina e adiponectina - sei lá que porras são essas mas devem ser o bicho.

No resumo da ópera, mulheres saudáveis devem ter o corpo em formato de pêra. Há um paper da pesquisa, a quem interessar possa, publicado no “International Journal of Obesity”.

Portanto, gostosonas, deixem suas curvas, bundas e coxas em paz. E caiam matando sem culpa na macarronada. Os homens adoram. E agora vocês sabem que faz bem.