Lula deve buscar asilo no exterior ?

Fico embasbacado com esta história de gente ligada ao PSOL, gente boa, que admiro e sigo no facebook, embarcando numa canoa que nem fundo tem pra estar furado: este papo de que Lula deveria pedir asilo para escapar da perseguição política que sofre e, uma vez fora do Brasil, a salvo da prisão, liderar um movimento de denúncia ao golpe midiático-jurídico-parlamentar que derrubou a Dilma e agora deságua num "estado de exceção" que se cristaliza no, e pelo, impedimento da candidatura lulista à presidência.

Nem vou insistir no fato de que esta conversa só pode existir, só tem algum sentido, se antes você assume como realidade factual o discurso que até então vinha sendo uma narrativa dos acontecimentos exclusiva dos lulistas, e que estas mesmas pessoas até ontem criticavam em vários pontos, não raro com toda a razão.

Também não me estenderei na observação de que a proposta não encontra respaldo na biografia de quem se deseja ver asilado, nem casa com os interesses da massa que o apóia.

O que me interessa expor aqui são duas coisas: a primeira, é que o estado de exceção em que vivemos NÃO se mede pelas vicissitudes deste processo que condenou o Lula. Ele é muito anterior, remonta ao pacto social que deu origem à Nova República de Tancredo e Sarney, se é que não podemos recuar ainda mais na investigação das suas origens. E desenvolveu-se desde então, inclusive nos governos do PT. E este processo do imóvel no Guarujá não é o único em que o Lula é julgado, diga-se de passagem, nem mesmo o mais robusto, em termos das "provas" apresentadas. No caso do sítio de Atibaia, por exemplo, a defesa do réu não poderá alegar a ausência do usufruto do bem, por parte do ex-presidente e sua família. A chance de ele vir a ser condenado também neste processo, todos reconheciam até ontem, era bem maior do que no caso do Triplex. A inelegibilidade decorre diretamente da legislação em vigor, em particular da lei da Ficha-Limpa, que o próprio Lula sancionou quando era presidente. Deste modo, não vejo como fundamentar uma proposta desta numa suposta "mudança de qualidade" do tal estado de exceção causada pela condenação. Esta apenas reforçou o já existente status quo, não alterou seu caráter fundamental de excepcionalidade.

A segunda é: por que motivo esta ideia surge de setores do PSOL logo agora, tão antes da condenação produzir seus efeitos esperados, quando ainda cabem recursos a instâncias superiores, e até mesmo quando não se pode descartar de todo a possibilidade de que um dos vários ministros do STF nomeados pelo Lula lhe conceda monocráticamente (hoje é um hábito muito comum na corte) um Habeas Corpus que o livre da prisão imediata ? Quando a questão da inelegibilidade ainda nem sequer foi levada ao TSE, que é quem deve decidir a respeito ? Por que a pressa ? Basta olhar o calendário eleitoral e a explicação saltará aos olhos. Quanto mais cedo o nome do Lula estiver definitivamente alijado das opções oferecidas nas urnas, mais tempo se terá para costurar um plano B para a disputa. No caso do PSOL, talvez se esteja imaginando que isto levaria a uma definição do Boulos sobre se este aceita ou não candidatar-se, afinal. E que, sem alternativa própria, uma parcela expressiva dos atuais eleitores lulistas se dispusessem a votar no líder dos sem-teto. Tratar-se-ia, assim, de tentar criar, para depois aproveitar, uma oportunidade de sair do imobilismo a que o próprio PSOL se relegou por consequência das resoluções que adotou em seu último Congresso.

Nunca tinha enxergado antes, no PSOL, uma ação política tão claramente oportunista quanto esta me parece ser. Isto me entristece, embora não me surpreenda, por ser uma tentativa destrambelhada de mudar uma situação insustentável que o próprio partido criou para si.

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