O caso e o acaso



- Alô!

- Eu quero falar com O Que Sempre Chega Depois.

- Ele não está e acho que não volta hoje.

- Como não volta hoje? Nós combinamos sair esta noite.

- Um momento, vou acender a luz. Estava no escuro. Eu sempre detestei falar ao telefone no escuro. Depositei o fone em algum lugar e apertei o interruptor. Luz!

- Pode falar agora. Já acendi a luz. Silêncio do outro lado do fio. Eu e a minha mania de dizer coisas irrelevantes em horas irrelevantes.

- Você é O Que Desenha? Você mora com O Que Sempre Chega Depois?

- Sim, sou eu. Sim, moro...

- Ah! O Que Sempre Chega Depois me falou de você. Meu nome é Hilary. Você não me conhece. Vi uns desenhos seus e achei lindos...

- Obrigado, respondi impostando o tom condescendente de ídolo para fã. Meu ego estremecera até as raízes. Estava sozinho em casa num tremendo sábado a noite, sem namorada e com 24 anos de idade. Pensei: deve ser uma garota inteligente e gostosa...

- Escute, disse ela, vai ter uma festa junina aí na Praça Xavier de Brito, na Tijuca, hoje. Você não quer ir comigo?

- Será um prazer...

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Péra aí! Alguém aí falou em Física? Pensei ter lido em algum comentário num post qualquer a palavra física. Saiba, então, O Que Falou a Palavra Física, que não existem sistemas físicos inanimados no mesocosmos que cheguem sequer perto de ser tão complexos quanto os sistemas biológicos de macromoléculas e células. Tudo para a Física, e também para a Matemática, é insuportavelmente estático.

“Nem a seleção natural nem a sexual garantem um determinismo semelhante. De fato, o produto de um processo evolutivo é em geral o resultado de uma integração de inúmeros fatores secundários. O acaso, no que diz respeito ao produto funcional e adaptativo, é o grande gerador de variação. Durante a meiose, na divisão celular redutiva, ele rege tanto a permutação (crossing-over) quanto o movimento de cromossomos. Curiosamente, foi por este aspecto casual da seleção natural que tal teoria foi criticada com mais freqüência. Alguns contemporâneos de Charles Darwin, como o geólogo Adam Sedgwick, declararam que era anticientífico invocar o acaso em qualquer explicação. Na realidade, a própria casualidade da variação era o que havia de mais característico na Evolução darwiniana. Ainda hoje há muita discussão sobre o papel do acaso no processo evolutivo. A seleção natural, obviamente, tem sempre a última palavra. Não é por outro motivo, que foram necessários mais de duzentos anos para que o status científico da Biologia fosse reconhecido. A Física com fundamentação matemática se tornou a ciência exemplar para Galileu, Newton e todos os gigantes da Revolução Científica. Curiosamente, outras ciências foram espremidas para dentro do quadro conceitual da Física e da Matemática, consideradas as verdadeiras ciências.” (Ernst Mayr, Biologia, Ciência Única, 2004)

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- Sempre gostei de festas juninas...

- É? Eu também. Naquele momento eu estava disposto a concordar com tudo o que ela dissesse. A Hilary era uma garota muito interessante. Cabelos pretos bem compridos, vestido curto, seios fartos, descolada. Estudava História na UFF em plena ditadura militar e, como se já não fosse o bastante, um tanto problemática. Sempre tive uma quedinha por garotas problemáticas e sempre acabei quebrando a cara. Mas, fazer o quê? As condições objetivas e subjetivas estavam dadas e o momento histórico era perfeito para explodir uma paixão fulminante. Falamos de horóscopos, teatro, política...muita política.

- No fundo nós somos Dom Quixotes, como todo cidadão brasileiro que tá resistindo, sentenciou. Essa nossa juventude é genial, maravilhosa, são todos meus companheiros de luta! O que um desses burgueses imbecis sabe da vida, de curtir a vida ou de dar o sangue todo dia numa fábrica? Minha cabeça rodava por conta do vinho barato que bebíamos à horas e por sua verve fácil e hipnotizadora. Tudo ao redor parecia longe...muito longe: música, risos, pessoas conversando...longe...muito longe...

- Você tá legal?

- Eu? Claro! Meu olhar pegajoso me entregava legal e eu queria mais era me entregar. Só conseguia enxergar sua deliciosa boca e meu pensamento viajava...

-Acho melhor a gente ir embora...

- Tá, mas já é tarde. Quer dormir lá em casa? Hilary segurou-me pelos ombros e olhou-me no fundo dos olhos. Mesmo já meio bêbado ou, quem sabe, por isso mesmo, pude perceber também nos seus olhos o brilho do desejo...

- Está bem. Vamos...

- Vamos... Bingo! Meu jeito meigo de bom moço era infalível aos 24 anos. Uma chuva forte caiu sem aviso. Corremos pela rua deserta e entramos pela porta da garagem do prédio em que morávamos, eu e O Que Sempre Chega Depois. A esta altura eu suplicava à todos os deuses possíveis para que o cara não estivesse em casa. Afinal, o alvo da noite, pelo menos até antes da festa, era ele e não eu. Eram duas horas da manhã. Dentro do elevador, Hilary encostou-se melosamente na parede, com infinitos dengos de sedução. Num momento mágico, ela olhou para mim e baixou suavemente o olhar. O tempo parou. Meu coração disparou. Ela estava me provocando. Ótimo. Segurei seu rosto no ar a caminho de um beijo insano, quase carinhoso. Nossas roupas molhadas de chuva e suor. O doce hálito do vinho...

- Tira a roupa, falei calmamente. E, sem esperar qualquer resposta, comecei a levantar-lhe o vestido. Ela resistiu.

- Espera, aqui não. Vão ver a gente...

- E daí?

- Não é uma boa.

- Você está com medo?

- Claro que não...

- Então tira a roupa. E começamos a rir loucamente como a muito não fazíamos...

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Em tempo:

1. O fruto deste (a)caso hoje tem 24 anos e é um filho maravilhoso.

2. O Que Sempre Chega Depois não estava em casa, naquela noite, graças à Deus! Chegou depois, logo depois...

3. O café-da-manhã no dia seguinte, à três, foi muito...interessante.

4. Talvez publique um dia post que relata, com detalhes, tudo o que se passou depois.

4. Ernst Mayr publicou "Biologia, ciência única" , em 2004, aos 100 anos de idade e ficou conhecido como o Charles Darwin do Século XX.

5. Beijo.


Comentários

  1. E tudo à beira das minhas barbas, né, o que desenha? Sem ciúme, com ciúme... Esqueci o nome daquela nossa vizinha gostosinha que eu não comi, mas lembro que foi lá que, pela primeira vez, ouvi aquele trechinho de música clássica, de apenas alguns segundos, que constava propositalmente mal sintonizado em Wish You Were Here, e que coadjuvantemente me fez enveredar por caminhos musicais então pouco usuais.
    Mas voltando à "Hilary", sua irmã mais velha (lembras-te do nome?) foi a primeira pessoa que ouvi declamando, sem ler, Tabacaria, o que me fez pensar: Carai, que meninas! Isso fora, naturalmente, o tesão nunca revelado, o que te deu grande vantagem circunstancial. Mas já lá se vão quase trintinha, né?
    Foi mais que desenho, foi viagem...

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  2. A arrogância do bofe...
    Existem sim, ó biólogozinho, uma infinidade de sistemas físicos muito complexos, que só podem ser tratados por modelos estatísticos, particularmente na área da mecânica dos fluidos, sem falar na mecânica quântica, cujas implicações teóricas desafiam a capacidade de imaginação humana.
    Ouviu cantar o galo, mas não sabe bem onde...

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  3. delícia: a história tesuda, o ciuminho dissolvido, a guarda ativa dos maneirismos científicos...
    dá-me mais!

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  4. Meu caro e ciumento amigo,
    Bofe arrogante, eu? pode?
    Você como físico é um excelente sociólogo. Entendo seu desespero: eu lhe falo de acaso (cara, acaso!) e você me vem com modelos estatísticos...1 a 0. Sobre mecânica de fluidos só entendo do fluir do líquido precioso, maltado ou cevado, da garrafa para o copo. Tá legal....1 a 1. Quanto à Física Quântica pode parar! Esse negócio de quem sou eu? quem és tu? quem somos nós? parece-me papo pré-socrático. Universo paralelo? Energia escura? Acho que você está vendo demais os documentários do History Channel. 10 a 0. Bj.

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  5. Do desenho, uauuuuuuuuuuuuuuuuuuu gostei da histórinha, conta mais, foi um amor relâmpago? Um amor que durou? Uma noite só? Dura até hoje? Vc nas letrinhas é tão bom qto no desenho.
    Não loga pro ciúme do atrasado, e nem pra birra do espaçoso.
    Bjkss vc é 1000.

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  6. Ahhh, digo espaçoso, pois pra mim quem não tem problema de agenda tem espaço pra respirar.
    Bjus

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  7. Cassinha, vc já se desculpou antes mesmo de levar a bronca?
    Isso é que é rapidez, hein?

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  8. Agora só falta o comentário da Marília!

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  9. Querido o que desenha:

    Você, numa digressão gratuita, falou em sistemas físicos inanimados (!?!?) de complexidade sempre inferior à de quaisquer sistemas biológicos (?!?!), mesmo só os unicelulares. Disse também que tudo (TUDO?) na Física e na Matemática era insuportavelmente... estático (?!?!)! É o que está escrito.

    Eu quis mostrar que há sistemas físicos cujos modelos matemáticos são extremamente complexos. E estática é, em si, apenas um ramo da Mecânica Clássica. O outro chama-se dinâmica, e consiste no estudo do... movimento.

    Quanto ao acaso, o conceito não é de propriedade das ciências biológicas, pertence antes à matemática.

    Além de que, na base de todo fenômeno estudado pela biologia se encontra toda uma vasta gama de interações, reações e trocas de estímulos físico-químicos, todos regidos pelas leis da... física.

    Eu não sou um excelente sociólogo. Nem um excelente físico. Mas estudei as duas coisas (e alguma matemática, também) por muito tempo, tenho pelo menos uma noção básica a respeito.

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  10. ok, Cassinha. Valeu!
    A história vai continuar sim...mas, desde já, aviso: tirem as crianças de perto!
    Bj

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  11. O ambiente por aqui está esquentando....rsrsrs.
    A curiosidade aflora. Bj

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  12. Estava com saudades de vc " A novíssima geração", escreve mais !!
    Estes adoráveis homens e suas mentes brilhantes...!!! Quero mais é q provoquem, que sejam espaçosos e que cheguem atrasados.
    Era este o comentário ? rs
    bj carinhoso pra vc

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  13. Ô Marília, quer dizer que vc quer mais é que provoquem, que sejam espaçosos e que cheguem atrasados? E que desenhem, não quer? Magoei...

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  14. Aí, véio espaçoso...não encana, não! A impricãncia é com a física e não com os físicos...
    te amo, véio...
    bye, véio...

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  15. kkkkk, vc tá mal acostumado, hein ? Quem é mesmo o ciumento ? Quero o desenhista tb, tá bom assim ?
    bj véio

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  16. Calma, meninas, não se arranquem os cabelos (bom, pelo [pelo??] menos os têm), não se rasguem, não se cuspam. Agoram já não sei mais de que Hilary Jane falou. Genial, E.C. Burroughs!

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