À Morte de Um Amor


Dia desses (ou melhor, noite dessas), tive insônia. Me revirava de um lado a outro na cama, sem notar qualquer sinal de que conseguiria pregar o olho. Já eram 2:30 da manhã e nada do sono voltar. E ainda por cima estava com aquela vontade louca de escrever que me dá de vez em quando e que, enquanto não arrumo um papel (ou um teclado), ela não passa. Não dá uma trégua sequer. Sabendo disso, no meio da madrugada, liguei o computador, abri o WordPad e mandei ver. Lembrando de uma antiga paixão não correspondida, saiu isso aqui:

"Eu realmente o amava.

Amava-o o máximo que poderia alguém amar a um rapaz degradado, feio, ranzinza, fumante e, provavelmente, virgem. De feições indiscutivelmente feias, do pescoço para baixo seu belo corpo nada deixava a desejar. A constituição esguia e as formas delicadas insinuavam todos aqueles segredos pelos quais eu daria meu mundo inteiro para poder desvendar. A pele morena, coberta de pelos fartos, coroava o conjunto, irresistível ao meu olhar, o qual ansiosamente ia despindo-o peça por peça, ansiando que aquele sonho solitário se tornasse realidade.

Amava-o como a mulher que sou agora, e pensar que poderia tê-lo feito homem enche ainda mais de pesar meu coração despedaçado. E a mulher que sou agora floresceu bem diante dos olhos dele, que insistiam em nada ver. Olhos grandes, expressivos, escuros como o céu da meia noite, e emoldurados por longos cílios pretos, porém tão tristemente cegos que dignos de pena.

E sim, ainda penso nele, e lembro de todos aqueles momentos que poderiam ter sido e não foram, do beijo que tanto quisera ter roubado, e de como cada conversa que tínhamos invarialvelmente desviava, nervosa, do ponto inocultável, de todo o amor que eu não conseguia conter e que ele se negava terminantemente a corresponder. Penso que ele me via como uma menininha de uniforme, que expressava veementemente suas opiniões só para aparecer, e talvez estivesse certo em duvidar de mim. Mas minha paixão era verdadeira.

Penso também em como, sendo ele tão inteligente, de eloquência tão singular, pôde se mostrar tão tolo. Tolo por ter dispensado aquela que o amou como niguém mais será capaz de amá-lo. E se eu disser seja feliz mesmo que sem mim, estarei mentindo, pois sei que não foi feliz e provavelmente nunca será.

E até agora venho tocando minha vida, o que eu sentia por ele vai se reduzindo àquela nostalgia que a cada dia que passa vai perdendo a pungência e o amargor, e que talvez algum dia possa se sublimar em uma leve saudade de gosto quase doce."

"Que pena, amor, que pena".

Comentários

  1. Muito interessante o blog !
    Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir...;

    www.bolgdoano.blogspot.com

    Muito Obrigada, desde já !

    ResponderExcluir

Postar um comentário